Friday, November 27, 2020

VÍRUS, FUTUROLOGIA E HORROR À DEMOCRACIA

VÍRUS, FUTUROLOGIA E HORROR À DEMOCRACIA | Plataforma Cascais

Tal como se previu ainda antes de o autoritarismo começar a cavalgar a pandemia, a COVID-19 tem as costas muito largas e nelas cabem todos os pretextos imagináveis para usar discricionariamente as alavancas dos poderes, sejam eles nacionais e, sobretudo, globais. Não existe nada tão sensível como a saúde, de cada um e de todos; nada é tão manipulável como uma sociedade reduzida ao medo, agravado através de campanhas de pânico; poucas coisas condicionam tanto os comportamentos humanos como a incerteza. E os que não convivem bem com a democracia aproveitam.

O caldo de cultura está pronto: basta mexê-lo. E para isso há mestres em acção e com receitas bem programadas que já perderam há muito, nas ânsias de aproveitar “esta rara mas estreita janela de oportunidade”, as originais e alegadas preocupações com a saúde pública. Em boa verdade é “do futuro dos negócios que se trata”, como agendou o Fórum Económico Mundial para o seu próximo conclave em Davos, que decorrerá ainda em pleno “Inverno negro” pandémico.

Recuemos dez anos no tempo e recordemos o cenário imaginado pela globalista Fundação Rockefeller, uma das principais patrocinadoras do fórum de Davos, ao antecipar o aparecimento de “uma nova estirpe de gripe extremamente virulenta e mortal”. Estávamos em 2010 e no capítulo “Lock Step” da sua antevisão designada “Cenários para o Futuro da Tecnologia e do Desenvolvimento Internacional” a citada fundação projectava uma situação em que, perante a pandemia, “dirigentes nacionais em todo o mundo reforçam a sua autoridade e impõem regras e restrições herméticas, desde o uso obrigatório de máscaras até à verificação da temperatura temporal”.

A Fundação Rockefeller, além de reconhecidamente “filantrópica”, como as comunicações mundana e “de referência” nos lembram sem parar, é também visionária. E previu, como consequência da pandemia, “um apertado controlo governamental de cima para baixo e uma liderança mais autoritária”, com “crescente pressão sobre os cidadãos”.

Se recordo estes dotes de adivinhação manifestados pelos mais acérrimos defensores da globalização neoliberal, também exibidos durante o “Evento 201” ocorrido em Outubro de 2019, dois meses e meio antes de conhecido o SARS-CoV-2, é para os podermos ler e interpretar de acordo com a realidade que vivemos nos dias de hoje.

E podermos partir daí para antevermos o que nos espera, com ou sem COVID-19, cingindo-nos ainda às antevisões feitas em 2010.

“Mesmo depois de a pandemia ter sido ultrapassada”, lê-se no “Lock Step” da Fundação Rockefeller, “o controlo e supervisão mais autoritários das cidades continuaram e intensificaram-se” e, como “protecção contra a disseminação de problemas cada vez mais globais – de pandemias ao terrorismo internacional, a crises ambientais e ao aumento da pobreza -, os dirigentes mundiais apoderaram-se de maneira mais firme do poder”.

Isto é, a nova e “virulenta estirpe de gripe” trouxe o poder autoritário; depois, o vírus vai-se mas o autoritarismo fica. Não se trata, pois, de saúde pública mas sim de poder; e de poder cada vez mais global e antidemocrático.

Porque – e recorrendo ainda à receita programática da Fundação Rockefeller – a imposição desse autoritarismo será facilitada “por cidadãos assustados que voluntariamente abandonam parte da sua soberania – e privacidade – a Estados mais paternalistas, em troca de maior segurança e estabilidade”.

Agora, entre as previsões e a realidade por nós vivida tente o leitor situar-se.

A “janela de oportunidade”

Foi no Verão deste ano, quando ainda os poderes nacionais e transnacionais não tinham retomado a vertigem dos estados de excepção, preparando assim os cidadãos para que a excepção venha a ser a regra, que o Fórum Económico Mundial anunciou o tema para a sua reunião em Janeiro de 2021: o “Futuro da Natureza e dos Negócios” no âmbito do “Great Reset”, o “grande reinício” ou a “grande restauração” do capitalismo.

O Fórum Económico Mundial não é apenas mais um grupo de pressão e propaganda do neoliberalismo global como regime único. É, de facto, uma cimeira do neoliberalismo ao mais alto nível. Acolhe anualmente dezenas das grandes figuras da política e da economia globais, com destaque para os Estados Unidos da América – presidente incluído, seja ele qual for – e para a União Europeia, sem esquecer as presenças imprescindíveis dos expoentes do Banco Central Europeu, do Banco Mundial e do FMI.

Recorda-se que na mesma altura em que o fórum de Davos anunciou o seu “Great Reset” o FMI publicou um relatório intitulado “Da grande quarentena à grande transformação”. Transformar, reiniciar, restaurar: da Fundação Rockefeller ao Fórum Económico Mundial e FMI a orquestra neoliberal está perfeitamente afinada.

O que é o “Great Reset”? Segundo os promotores, uma resposta à pandemia de COVID-19 como “uma rara e estreita janela de oportunidade para reflectir, reimaginar e redefinir o nosso mundo de modo a criar um futuro mais saudável, mais justo, mais próspero”. Ou, como explica o magnata alemão Klaus Schwab, presidente do Fórum Económico Mundial, “precisamos de renovar todos os aspectos da nossa sociedade, desde a educação aos contratos sociais e condições de trabalho”; isto é, “precisamos de um grande reinício do capitalismo”.

Resta rematar que, na perspectiva da próxima reunião de Davos, a “Rede de Inteligência Estratégica” do Fórum Económico Mundial produziu uma Plataforma de Acção defendendo “um governo global para resposta à pandemia (…) moldando o futuro no século XXI desde os media às vacinas”.

Governo global, isto é, uma entidade tecnocrática, sem rosto e à qual caberá, para gáudio dos fundamentalistas neoliberais, gerir o fascismo económico planetário sem os entraves da democracia à medida que os Estados nacionais se vão dissolvendo no tropel da submissão da política aos poderes financeiros e económicos transnacionais.

Futurologia? Não mais do que o cenário gerado pela pandemia de uma “virulenta estirpe de gripe” idealizado em 2010 pela Fundação Rockefeller.

De governo global já falava, há mais de vinte anos, o estratego Henry Kissinger, criminoso de guerra, um dos gurus da Fundação Rockefeller e do globalismo: quando colocadas perante o desconhecido, disse, “as pessoas renunciam de bom grado aos seus direitos individuais, trocando-os pela garantia do seu bem-estar assegurado pelo governo mundial”.

Ou, como apregoa o presidente do Fórum Económico Mundial e pode ler-se como consigna no website desta entidade: “Bem-vindo a 2030! Não tem nada de seu, não tem privacidade mas a sua vida nunca foi melhor”. Isto no reino comandado pela “Quarta Revolução Industrial”, pela robotização e guiado pela inteligência artificial.

Continuamos na senda das elucubrações em torno do futuro, mas existe inegavelmente um fio condutor estratégico que pretende afastar-nos da situação em que vivíamos nos tempos pré-COVID em direcção ao tal “novo normal” no qual as excepções de antes se transformam em regras de agora. Como se lê a propósito da próxima reunião de Davos, a pandemia “é uma oportunidade para mudar a forma como comemos, crescemos, construímos e alimentamos as nossas vidas de modo a alcançar uma economia neutra em carbono, positiva para a natureza”. O discurso não é de amanhã, como facilmente se identifica, mas de hoje – em torno, por exemplo, do capitalismo “verde”, da “sustentabilidade” e de outras mais muletas propagandísticas do globalismo neoliberal. A propaganda está montada em função das teorias sobre o futuro criadas pelos fundamentalistas neoliberais de hoje. E que sabem, como ninguém, tirar o máximo proveito do vírus cujo aparecimento vaticinavam. Treinaram-se a contar com isso.

Para a generalidade das pessoas, a pandemia de COVID-19 é uma ameaça, um martírio, uma fonte de legítima e justificada insegurança; para os que a gerem mexendo cordelinhos transnacionais ao alcance dos que sonham com o “governo global”, a COVID-19 é o pretexto, a tal “janela de oportunidade” que vem mesmo a propósito para reforçar o fascismo neoliberal. Depois de tantas vezes previsto e encenado ao longo dos últimos anos, o vírus surgiu mesmo. Melhor só de encomenda.

Nos seus cenários o neoliberalismo estipula que o autoritarismo continuará e intensificar-se-á mesmo depois da pandemia. Cabe-nos combatê-lo democraticamente, desde logo em plena ...

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